Nos últimos anos o papa João Paulo II foi alvo de uma intensa pressão internacional referente aos casos de abuso sexual contra crianças por parte de religiosos em várias partes do mundo, principalmente, nos Estados Unidos. O caso que ficou mais famoso foi o envolvendo padres da Arquidiocese de Boston. Mas, mesmo com provas e, inclusive, com a confissão de culpa de alguns padres, o Vaticano adotou uma posição leve, enfurecendo as vítimas de abuso sexual.
A sede da Igreja Católica rejeitou as normas severas contra os padres, argumentando que a Carta de Proteção à Criança e ao Jovem é confusa, ambígua e difícil de conciliar com as leis canônicas. O Vaticano disse que "maiores reflexões sobre e revisão" da norma seriam necessárias antes que ela pudesse ser aprovada. A carta cria uma comissão de funcionários do Vaticano e da Igreja católica norte-americana para executar a revisão.
Os regulamentos que vítimas norte-americanas queriam impor determinavam que um bispo deveria remover um religioso de "qualquer função ou ministério eclesiástico" se houvesse acusação "confiável" de que ele praticara abusos sexuais contra um menor de idade. "É simplesmente trágico", disse David Clohessy, que dirige a Survivors Network of those Abused by Priests (Rede de Sobreviventes dos Abusados por Padres), uma organização de defesa das vítimas do abuso.
Os escândalos de pedofilia que abalaram a Igreja Católica nos últimos anos ocorreram praticamente em todas as dioceses dos Estados Unidos, e envolveram mais de 1,2 mil sacerdotes, que abusaram de mais de 4 mil crianças. Uma extensa investigação realizada pelo jornal The New York Times revela que 4.268 pessoas denunciaram publicamente ou à Justiça terem sido objeto de abusos de sacerdotes, embora vários especialistas afirmem que muitas mantiveram silêncio. A partir de registros judiciais, informes, documentos eclesiásticos e entrevistas, o Times encontrou acusações de abusos em 161 das 177 dioceses dos Estados Unidos.
Vítimas podem chegar a mil em Boston
Sacerdotes e outros membros da arquidiocese de Boston teriam abusado sexualmente de mais de mil pessoas nas últimas seis décadas, de acordo com o procurador de Massachusetts, Tom Reilly, indicando que o escândalo é tão grande que "é quase inacreditável". O relatório, resultado de um jurado pesquisador que tratou de determinar se a hierarquia católica deve ser processada por ignorar as denúncias de abuso sexual, disse que a arquidiocese recebeu queixas de 789 supostas vítimas que acusaram a mais de 250 sacerdotes e a empregados da Igreja. No entanto, se outras fontes forem levadas em conta, disse o procurador, é possível que tenham existido mais de mil vítimas, desde 1940 até agora.
O cardeal Bernard Law, que renunciou como arcebispo em dezembro de 2002, "é o principal responsável pelo trágico tratamento que sofreram crianças durante o tempo em que exerceu o cargo", disse Reilly no relatório de 91 páginas. "Mas ele não é o único responsável. Com raras exceções, nenhum dos principais administradores da arquidiocese lhe aconselharam adotar os passos necessários para pôr fim a esse sistemático abuso de crianças".
Apesar do que Reilly considera "uma aceitação institucional dos abusos", não foram feitas queixas porque as leis de proteção à infância que se achavam vigentes durante a época em que se cometeram os abusos não o permitiam.
A grande quantidade de denúncias de abuso sexual documentada por pesquisadores em Boston parece sem precedentes, mesmo em meio de um escândalo que afetou a igreja em quase todo estado e fez com que cerca de mil pessoas formulassem acusações a nível nacional durante o ano passado. "O abuso a crianças foi tão grande e tão prolongado que chega a ser incrível", disse Reilly na carta de apresentação anexada ao relatório.
O relatório é o resultado de 16 meses de investigação sobre a forma como os líderes da Igreja lidaram com o escândalo. "Eles preferiram proteger sua imagem e a reputação de sua instituição em lugar da segurança e o bem-estar das crianças confiadas a seu cuidado. Eles atuaram com uma pervertida devoção quanto ao segredo", diz o relatório em sua conclusão. "E eles não romperam o código de silêncio mesmo quando a magnitude do ocorrido deveria ter alertado a qualquer administrador razoável e responsável sobre a necessidade de procurar ajuda".
O papa Bento 16 pediu aos bispos irlandeses que mostrem “determinação e firmeza” ao confrontarem o escândalo de abuso sexual que estarrece a Igreja Católica Romana na Irlanda
Mesmo com as conversas no Vaticano em andamento, John Kelly, fundador de um grupo de vítimas chamado Irish Survivors of Child Abuse, escreveu em uma carta ao papa, divulgada em Londres: “Os poderes seculares na Irlanda parecem não conseguir trazer à justiça civil alguns daqueles que cometeram atos de desprezível abuso, bem como aqueles que ajudaram com atos de omissão, ou até de conivência direta após o fato”.
“Além disso, as ordens religiosas às quais essas pessoas pertencem permanecem intactas e continuam a operar dentro e fora do Estado”, disse a carta.
Quatro bispos irlandeses apresentaram sua renúncia após o escândalo, mas o papa aceitou somente uma. Um porta-voz do Vaticano, reverendo Federico Lombardi, disse que o assunto de outras renúncias de bispos “não foi abordado” nas conversas no Vaticano, relatou a The Associated Press.
O papa se encontrou individualmente com 24 bispos irlandeses após um relatório de novembro do ano passado afirmar que a igreja na Irlanda escondeu o abuso infantil em Dublin durante quase 30 anos até 2004. Um relatório independente lançado em maio descrevia décadas de abuso sexual e físico contra crianças que estudavam em internatos dirigidos pela Igreja no país.
As conversas foram um prelúdio para a publicação de uma carta pastoral do papa para os católicos irlandeses que, segundo o comunicado, seria divulgada nas próximas semanas. O documento será a primeira declaração papal do tipo que trata especificamente de pedofilia, disseram especialistas em Vaticano.
Nas conversas com o papa, “os bispos falaram de forma franca sobre seus sentimentos de dor e raiva, traição, escândalo e vergonha manifestados a eles em diversas ocasiões por aqueles que sofreram abusos”, disse o comunicado.
Mas os bispos insistiram que “ainda que não houvesse dúvida de que erros de julgamento e omissões estejam no cerne da crise, medidas significativas foram tomadas para garantir a segurança de crianças e jovens”.
Os bispos também prometeram “seu comprometimento com a cooperação junto às autoridades legais” na República da Irlanda e na Irlanda do Norte “para garantir que os padrões, políticas e procedimentos da igreja representem as melhores das práticas nessa área”.
O comunicado dizia ainda: “sua Santidade observou que o abuso sexual de crianças e jovens não só é um crime abominável, como também um grave pecado que ofende a Deus e fere a dignidade do ser humano criado à sua imagem e semelhança”.
“Ainda que perceba que a penosa situação atual não será resolvida rapidamente”, disse o comunicado, o papa “desafiou os bispos a abordarem os problemas do passado com determinação e firmeza, e a encarar a crise atual com honestidade e coragem”.
O relatório divulgado em novembro passado horrorizou muitas pessoas, com revelações de graves abusos cometidos por padres.
Grupos que representam as vítimas manifestaram revolta pelo fato de o abuso ter continuado por tanto tempo, e eles pressionaram o papa para que ele ajudasse a levar os acusados a julgamento em cortes civis. O comunicado desta terça-feira não fazia referência direta a tais ações.
A revelação de décadas de abuso mostra uma igreja irlandesa com uma crise de fé que também poderia se tornar uma crise financeira, caso as vítimas busquem uma reparação financeira pelo que o comunicado chamou de “falha das autoridades da Igreja da Irlanda, durante muitos anos, em agir de forma eficaz ao lidar com casos envolvendo o abuso sexual de jovens”.
De acordo com a agência de notícias italiana ANSA, Lombardi, o porta-voz do Vaticano, disse em uma coletiva de imprensa que o comunicado mostrava uma indicação de “sincera autocrítica sobre o que aconteceu”.
Ele disse também que duvidava que a carta pastoral do papa trataria da questão de relatar casos de abuso sexual para autoridades judiciais por causa de diferenças na legislação nacional.
Falando na mesma coletiva de imprensa, o arcebispo Sean Brady, líder da Igreja Católica da Irlanda, disse que o papa havia confrontado a questão irlandesa com “indignação e preocupação, mas também nos incentivava a renovar nossa fé e continuar nossa missão”.
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